there was blood
there was blood on your face
your thin long fingers
- a dog barking outside -
you were a photograph
forever still like the sun coming in from the eternal sunset on the end of paradise
there was a knife twisting on the chest
spinning, speeding
- I wish I could get used to your presence.
Love is like life but longer
“Love is like life but starts before, continues after. We arrive and depart in the middle.”
(um trecho)
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
- Drummond
OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO
(…)
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos
edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
- Drummond
O SEU SANTO NOME
Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.
- Drummond
The road not taken
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
-Robert Frost, 1916
O Processo Criador, 1957
“O artista nunca tem plena consciência de sua obra: entre as suas intenções e sua realização, entre o que quer dizer e o que a obra diz, há uma diferença.”
- Marcel Duchamp
Estocolmo
Segunda vez nessa viagem que me sinto assim.
Hoje faz exatamente um mês que saí de casa e eu não sinto saudade. Não sinto nada, é muito estranho. É como se eu nunca tivesse entrado no avião. Não eu, mas a passageira. E é como se eu, de fato, fosse alguma coisa entre as duas, flutuando nos ares, entre São Paulo e Algum Lugar.
Acho que em Paris me senti assim e agora também porque a gente sempre vai ou volta pra algum lugar esperando que lá, nessa terra ou nesse tempo novo, a gente vá se encontrar. Mas nem Estocolmo nem lugar nenhum parece ser capaz de fazer isso por mim.
…
Acho que nunca escrevi aqui em primeira pessoa. Aliás, faz muito tempo que eu não escrevo, sequer em primeira pessoa. Antes eu ainda colocava esses textos soltos em língua estrangeira, em terceira pessoa, como se isso fosse afastá-los do óbvio: de que eles são sempre sobre mim. Mas voltando a ler um pouco de poesia e fazendo essa imersão quase diária em arte, visitando museus, galerias, exposições, vai ficando cada vez mais claro que qualquer obra de arte verdadeira é mesmo expressão individual. Que seja de um sentimento de mundo, artista algum – pessoa alguma – pode experimentar o mundo e ainda menos comunicar alguma experiência que não seja de sua ordem pessoal. Os retratos de Schiele são todos, na verdade, autorretratos. As flores de Mapplethorpe são autorretratos. Enfim.
Retomar a escrita tem sido algo no qual venho pensando há tempos. Ultimamente reparei que de diálogos com amigos no gtalk ou whatsapp têm surgido textos interessantes. O que me lembra da tradição de cartas na literatura. Mas nos messengers as conversas vão sempre se perdendo aos poucos, e tenho vontade de poder me lembrar com exatidão de certas coisas escritas, ideias que surgiram espontaneamente. Sozinha tem sido mais complicado fazer esse diálogo.
Retomar a escrita é difícil. Exige uma precisão que a fotografia às vezes deixa passar batida. A fotografia é um emaranhado de fios. A escrita é o tecer desses fios.
…
Estrangeira numa terra estranha. Hoje é solstício de verão. Já é quase meia-noite e o céu continua azul daquele jeito lindo que a câmera nunca consegue captar. Como se o sol tivesse se posto há vinte minutos. Mas fica assim até duas da manhã, quando o sol lentamente começa a nascer.
Hoje à tarde fomos ao Hagaparken de bicicleta. Contornamos o lago até onde o caminho permitiu. Estranho ver gaivotas no parque. Pequenas flores muito frágeis crescem por todos os lados, no meio da grama, às margens da água. São as minhas favoritas. Estava tudo muito quieto, tão silencioso.
Estocolmo é muito limpa, muito organizada, tudo parece funcionar. Em alguns momentos acho que falta aquele toque de caos de lugares como Londres ou Paris. Mas então não seria a Escandinávia. As pessoas são tão bonitas. Praticamente todas elas. Olhos azuis amendoados, cabelo liso e dourado, pele rosada, lábios cheios, altos, esguios, rostos angulares, maçãs do rosto elevadas. Um lugar tão perfeito assim e talvez seja por isso que só ficou mais evidente pra mim que aqui não é meu lugar.
Nem aqui nem Paris nem São Paulo.
Manifesto 1992
Architecture and war are not incompatible.
Architecture is war.
War is architecture.
I am at war with my time, with history,
with all authority that resides in fixed and frightened forms.
I am one of millions who do not fit in,
who have no home, no family,
no doctrine, nor firm place to call my own,
no known beginning or end,
no sacred and primordial site.
I declare war on all icons and finalities,
on all histories that would chain me with my own falseness,
my own pitiful fears.
I know only moments, and lifetimes that are as moments,
and forms that appear with infinite strength, then melt into air.
I am an architect, a constructor of worlds,
a sensualist who worships the flesh, the melody, a silhouette against the darkening sky.
I cannot know your name. Nor can you know mine.
Tomorrow, we begin together the construction of a city.
-Lebbeus Woods