Estocolmo
Segunda vez nessa viagem que me sinto assim.
Hoje faz exatamente um mês que saí de casa e eu não sinto saudade. Não sinto nada, é muito estranho. É como se eu nunca tivesse entrado no avião. Não eu, mas a passageira. E é como se eu, de fato, fosse alguma coisa entre as duas, flutuando nos ares, entre São Paulo e Algum Lugar.
Acho que em Paris me senti assim e agora também porque a gente sempre vai ou volta pra algum lugar esperando que lá, nessa terra ou nesse tempo novo, a gente vá se encontrar. Mas nem Estocolmo nem lugar nenhum parece ser capaz de fazer isso por mim.
…
Acho que nunca escrevi aqui em primeira pessoa. Aliás, faz muito tempo que eu não escrevo, sequer em primeira pessoa. Antes eu ainda colocava esses textos soltos em língua estrangeira, em terceira pessoa, como se isso fosse afastá-los do óbvio: de que eles são sempre sobre mim. Mas voltando a ler um pouco de poesia e fazendo essa imersão quase diária em arte, visitando museus, galerias, exposições, vai ficando cada vez mais claro que qualquer obra de arte verdadeira é mesmo expressão individual. Que seja de um sentimento de mundo, artista algum – pessoa alguma – pode experimentar o mundo e ainda menos comunicar alguma experiência que não seja de sua ordem pessoal. Os retratos de Schiele são todos, na verdade, autorretratos. As flores de Mapplethorpe são autorretratos. Enfim.
Retomar a escrita tem sido algo no qual venho pensando há tempos. Ultimamente reparei que de diálogos com amigos no gtalk ou whatsapp têm surgido textos interessantes. O que me lembra da tradição de cartas na literatura. Mas nos messengers as conversas vão sempre se perdendo aos poucos, e tenho vontade de poder me lembrar com exatidão de certas coisas escritas, ideias que surgiram espontaneamente. Sozinha tem sido mais complicado fazer esse diálogo.
Retomar a escrita é difícil. Exige uma precisão que a fotografia às vezes deixa passar batida. A fotografia é um emaranhado de fios. A escrita é o tecer desses fios.
…
Estrangeira numa terra estranha. Hoje é solstício de verão. Já é quase meia-noite e o céu continua azul daquele jeito lindo que a câmera nunca consegue captar. Como se o sol tivesse se posto há vinte minutos. Mas fica assim até duas da manhã, quando o sol lentamente começa a nascer.
Hoje à tarde fomos ao Hagaparken de bicicleta. Contornamos o lago até onde o caminho permitiu. Estranho ver gaivotas no parque. Pequenas flores muito frágeis crescem por todos os lados, no meio da grama, às margens da água. São as minhas favoritas. Estava tudo muito quieto, tão silencioso.
Estocolmo é muito limpa, muito organizada, tudo parece funcionar. Em alguns momentos acho que falta aquele toque de caos de lugares como Londres ou Paris. Mas então não seria a Escandinávia. As pessoas são tão bonitas. Praticamente todas elas. Olhos azuis amendoados, cabelo liso e dourado, pele rosada, lábios cheios, altos, esguios, rostos angulares, maçãs do rosto elevadas. Um lugar tão perfeito assim e talvez seja por isso que só ficou mais evidente pra mim que aqui não é meu lugar.
Nem aqui nem Paris nem São Paulo.
Devia fazer isso mais vezes…
É tão bom!
Alexandre de Andrade e Rezende
June 30, 2011 at 3:58 am